domingo, 16 de setembro de 2018

“A luta é permanente pela terra”


Por Luiz Ketu* 


        Na última sexta-feira, 14 de setembro, o Grupo Cultural Puxirão Bernardo Furquim e a Associação Quilombo São Pedro promoveram o 5º encontro de uma série de Bate-papos, que vem ocorrendo na comunidade, com o intuito de formação. Intitulado “Transmissão de saberes tradicionais”, o evento contou com os relatos de experiência de Dona Elvira Morato e Seo Antonio Morato, que falaram de trabalho, modos de vida, lutas e resistência pela terra, escola, entre outros assuntos. Seu Antonio Morato ao falar das roças e maneira de trabalhar pontuou: “Desde a barriga da minha mãe eu já ia para a roça. Os homens trabalhavam bastante e as mulheres acompanhavam eles no trabalho... e as crianças também”, diz A. Morato.
Já a Dona Elvira ressaltou a necessidade de defendermos sempre o território, pois segundo ela “A luta é pela terra, sem a terra onde eu vou morar? A luta é permanente, passe o que passar, é pela terra!”, afirma E. Morato. Entre o desejo de comprar uma caneca de ágata quando jovem e anseios contemporâneos, ela almeja “que os mais velhos e os mais novos não percam a esperança na comunidade. A terra é nossa! Procurem conhecer a história” finalizou Dona Elvira, ressaltando a importância dos mais jovens conhecerem a história dos antepassados, para manutenção da cultura quilombola.

Trocando conhecimentos

  A cada edição do evento duas pessoas são convidadas a partilhar conhecimentos e experiências com a comunidade. Já se debateram temas como acesso a universidade, cotas raciais, Adin 3239, território quilombola, Leia Áurea, Meio ambiente, entre outros, com a presença de universitários, professores, doutores e mestres da tradição oral. Tais encontros formativos fazem parte do rol de atividades do Grupo Cultural Puxirão Bernardo Furquim, que também realiza oficinas de capoeira, percussão, teatro e danças brasileiras diversas, para crianças e jovens da comunidade.


* Luiz Ketu (Luiz Marcos de França Dias) Líder comunitário, militante da temática negra com foco em Educação Escolar Quilombola, membro do Conselho de Educação Escolar Quilombola da Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, Professor de Educação Básica da Rede Pública Estadual e Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba/UNIMEP)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Associação Quilombo São Pedro realiza Bate-papo com o tema "Reflexões sobre o treze de maio"



No último dia 14 de Maio de 2018 ocorreu o IV Bate-Papo no Quilombo São Pedro. Promovido pelo Grupo Cultural Puxirão Bernardo Furquim, com apoio da Associação Quilombo São Pedro, o evento é parte de uma série de encontros que focam a formação da comunidade em geral. Crianças, jovens, adultos e idosos da comunidade se fizeram presentes para trocas de informações e conhecimentos acerca do tema “Reflexões sobre o treze de maio”. Também estiveram presentes as professoras Tania Américo, Viviane Marinho Luiz, Doutora em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, residentes do Quilombo Ivaporunduva; Laudessandro Marinho da Silva e Cristiano Furquim, graduados em Administração, também da comunidade vizinha.
Os trabalhos foram mediados através de apresentação realizada sobre principais dispositivos legais/históricos que contribuíram para a marginalização do povo negro no Brasil, resultando na ausência de reconhecimento de direitos territoriais, elevada taxa de homicídio—sobretudo de jovens, racismo ambiental, entre outros. As discussões ainda contaram com importantes contribuições e direcionamentos de integrantes intelectuais do próprio Quilombo São Pedro como a professora Márcia Cristina Américo, Doutora em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba; Vanessa de França, Daniela Joana de França e Elizete de França Dias, estudantes do curso de Pedagogia. 

Na ocasião fora ressaltada a importância e necessidade de conhecermos a nossa história, a real história do povo negro quilombola, que no Brasil fora deturbada em função da história contada pelo colonizador que até hoje é tida como verdade para muitos. O “Treze de Maio não é pra se comemorar, mas para refletir sobre as mazelas do nosso povo negro e os reflexos de uma abolição inacabada”, disse Márcia Américo. Neste sentido, o evento indicou várias possibilidades para outras discussões como racismo, democratização da mídia, direitos territoriais, troca de conhecimentos tradicionais, educação escolar quilombola entre outros.
Neste momento de caça aos direitos de minorias que o Brasil vem atravessando é essencial a manutenção das comunidades tradicionais. Elas são as principais responsáveis pela salvaguarda e continuidade da história, esperança e resistência, através dos modos de viver, se relacionar e preservar os recursos naturais; passados de geração em geração, daí a importância do encontro entre saberes/conhecimentos acadêmicos/ científicos e tradicionais. Visando isso, a maioria dos participantes do encontro sugeriu que as/os próximas/os expositoras/es sejam os nossos mais velhos, que tem muito a nos ensinar.
Fotos: fonte própria



* Luiz Ketu  (Luiz Marcos de França Dias- Líder comunitário, militante da temática negra com foco em Educação Escolar Quilombola, membro do Conselho de Educação Escolar Quilombola da Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, Professor de Educação Básica da Rede Pública Estadual e Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba/UNIMEP)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

vamos falar de Consciência Negra?

Vamos falar de Consciência Negra?[1]
Luiz Ketu[2]
“Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.” ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias) da Constituição Federal de 1988.
Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.” Lei 10.639-03
“Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena”. Lei 11.645/08
Vamos falar de Consciência Negra?
Após luta dos movimentos negro e quilombola pelo reconhecimento de lideranças negras que o Brasil sempre insiste em invisibilizar, o dia 20 de novembro foi escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra.
Dia em que Zumbi dos Palmares foi assassinado, após liderar o Quilombo de Palmares que resistiu quase 100 anos, até ser destruído com apoio do Estado!
Palmares fora destruído, mas em nossas veias corre o mesmo sangue de luta e RESISTÊNCIA de Zumbi, Dandara, Carolina Maria de Jesus, Cartola, Chiquinha  Gonzaga, Bernardo Furquim, Rosa Machado, Vandir de França, Carlito, Nizete, Luiza Mahin, Mãe Menininha, Machado de Assis e tantos outros e outras !
Muita gente ainda insiste em falar que devemos ter “Consciência humana” e não “Consciência negra”, já que somos todos humanos, não é mesmo?
 Mas ... onde está a sua “consciência humana” para analisar o fato de serem os negros as minoria nas universidades?
Onde está sua “consciência humana” quando o Atlas da Violência de 2017 revela que 3 jovens negros são assassinados por arma de fogo no Brasil a cada hora? 6 da manhã...7...8... Desde a hora que saiu de sua casa, mais de 10 jovens negros foram mortos hoje!
Tem culpados? Nas mãos de quem estão essas armas se a população não tem porte de armas de fogo? O engraçado é que balas só são perdidas nas periferias... nunca são perdidas no “Morumbis”, “Leblons”, em “Copa cabanas” ou “Jardins”...
Onde está sua “consciência humana” quando não aparecem negros e negras na TV? Onde está ela para estranhar o fato de termos um congresso nacional formado majoritariamente por homens... brancos?
Onde está sua “consciência humana” quando vota em partidos políticos que propõe atrasos na demarcação das terras quilombolas e indígenas no Brasil?
Onde está sua “consciência humana” quando diz “Somos todos Maju” mas muda de calçada ao ver um negro em sua direção ou esconde a bolsa ?
Onde está sua “consciência humana” quando grita VIVA BOLSONARO, sabendo que ele é racista, machista e homofóbico?
Pergunto, ainda: Onde está sua “consciência humana” quando diz que ama as comunidades, mas se cala e vota num governo que “Proíbe a nós de fazermos roça para plantar e comer?”  Um mesmo governo cujas leis ambientais não permitem perpetuar nossa própria cultura?
Onde está sua “consciência humana” quando diz que as comunidades quilombolas vivem de ajudas do governo, mas CEGA e RECUSA-SE a ver as mais de 80 toneladas de produtos que saem das roças do nosso povo direto para a mesa de escolas e instituições de mais de 6 municípios todo mês?
E eu lhe pergunto, ainda, onde está sua “consciência humana” quando é contra a legalização do aborto, e grita ser favorável a vida; mas defende a pena de morte, bradando que bandido bom é bandido morto? Ah! Só uma informação ... a maior parte das mulheres que morrem ou sofrem com uma gravidez indesejada são NEGRAS!
Falar de consciência negra é refletir sobre o racismo que mata! É falar da autoestima da jovem com o cabelo crespo e ainda não empoderada! É falar do menino que raspa a cabeça com vergonha da raiz crespa!
Falar de consciência negra é preocupar-se com nossos alunos e alunas que saem do EM e não conseguem ingressar no Ensino Superior. É refletir sobre o aluno que está no 6º ano, mas não sabe ler e nem escrever... Onde está sua “consciência humana”? Humana?
Falar de consciência negra é levar professores municipais e estaduais a conhecerem realmente as comunidades, dar formação e condições de trabalho, visando melhorias na educação básica nas comunidades quilombolas...
Falar de consciência negra é falar de história DO BRASIL ! É falar dos construtores e construtoras deste país... deste Vale do Ribeira. É falar daqueles e daquelas que construíram e constroem este município mas continuam sofrendo o racismo institucional... É falar daqueles que são alvos de olhares “tortos” quando ocupam os mercados, espaços públicos, lojas e bares no centro da cidade...
Portanto, pare de falar que “a Consciência é humana e blá blá blá!” Ela não é e nunca foi! Nosso grito ecoará chamando atenção de todos! Enquanto a sociedade não nos respeitar, enquanto o racismo perdurar, enquanto nossos jovens continuarem sendo assassinados pela Polícia, enquanto nossas terras não forem regularizadas, enquanto o governo nos proibir plantar pra sobreviver, enquanto não formos tratados de igual para igual, enquanto as TVs não nos mostrarem, enquanto o congresso não nos representar; gritaremos sempre: CONSCIÊNCIA NEGRA! Entendeu?




[1] Discurso proferido na abertura do Evento “Dia da Consciência Negra-2017” na EE Maria Antonia Chules Princesa no dia 20 de Novembro.
[2] Luiz Ketu-- Luiz Marcos de França Dias—é quilombola da Comunidade Quilombo São Pedro onde é vice-presidente da Associação da comunidade, dá oficinas e coordenador do Grupo Cultural Puxirão Bernardo Furquim e liderança regional se tratando de educação escolar quilombola. Graduado em Letras e em Pedagogia, é professor na EE Maria Antonia Chules Princesa. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Quilombo São Pedro recebe escola quilombola para estudo de campo

 Quilombo São Pedro recebe escola quilombola para estudo de campo
 No último dia 10, terça-feira, a Associação Quilombo São Pedro recebeu um público já conhecido, mas diferente daqueles que esporadicamente visitam a comunidade: alunos e alunas do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental II da Escola Estadual Quilombola Maria Antonia Chules Princesa realizaram estudo de campo vendo na prática o que tem acesso em sala de aula através dos docentes. Os visitantes foram recepcionados pelas lideranças no Complexo Comunitário Vandir de França, centro comunitário que leva o nome de um importante líder da comunidade das décadas de 1970 a 2000, na luta pelos direitos territoriais das comunidades. Na ocasião fora relatado sobre o início da comunidade até os dias atuais; esta originada a partir da vinda de Bernardo Furquim, a procura do pai dele, e Rosa Machado, sua esposa, para a região. Lavrinha, como era chamado o bairro antigamente, surgiu por volta do ano de 1825 e os filhos e filhas do casal foram se espalhando pelas comunidades de Galvão, Ivaporunduva, André Lopes, Sapatú, Ostra e Nhunguara. Os alunos aprenderam também sobre as importâncias do território quilombola e da organização da comunitária em Associação, visando o bem comum.
Na comunidade estudantes foram agrupados por salas, acompanhados de dois docentes e um casal de monitores para realização do roteiro. As turmas acompanharam o processamento da mandioca para fazer farinha, iniciando desde a ida a roça para colher o tubérculo, até o processo final de torra. O processo de socar arroz no pilão foi outra atividade prática; além disso, os discentes puderam, ainda, visitar a Casa de memórias, onde conheceram e relembraram utensílios comumente usados antigamente e alguns até os dias de hoje como serra de madeira, lampião, ferro de passar roupa, máquina de costura, gamela e muitos outros. Os grupos também realizaram visita guiada a Capela de São Pedro, que localiza-se ao centro da comunidade e carrega importante significado, vistas as histórias contadas de geração em geração. Ao final das atividades tocaram instrumentos de percussão do Grupo Cultural Puxirão Bernardo Furquim e jogaram futebol de campo sob o pôr do sol. Para as próximas semanas estão previstas as mesmas ações para todo o Ensino Médio.
A ação faz parte de uma série de atividades que a escola quilombola tem realizado nos últimos anos. Em 2015 todos os estudantes visitaram a Caverna do Diabo; em 2016 e 2017 as saídas de campo foram nos Quilombos Ivaporunduva e São Pedro, respectivamente. Além disso, o grupo de docentes também conheceu previamente todas as comunidades realizando conversa com as lideranças visando formação para atuação em sala de aula, atendendo a Resolução CNE/CP nº08 e as Leis 10639/03 e 11645/8. No ano de 2015 as ATPCs (aulas de Trabalho pedagógico Coletivo) se deram nas comunidades de Sapatú e André Lopes, em 2016 Galvão, São Pedro e Nhunguara receberam os professores e, por fim, em 2017 a equipe fechou o primeiro ciclo com as comunidades Ostra e Ivaporunduva.

Essas ações, embora tardias, partem esclusivamente d@s docentes que lecionam na unidade escolar e também das Gestoras que lá atuam. Segundo a Diretora Josemira Golvea, “o objetivo é conhecer a comunidade para agregar ao pedagógico...”, diz. Os projetos têm se fortalecido nos últimos anos e estão ancoradas nos dispositivos legais. Eles visam levar pra dentro da escola o conhecimento tradicional em consonância com o conhecimento científico, e a este atribuir sentido em sala de aula, mostrando a necessidade de ambos serem entendidos como fontes convergentes, sem que o segundo valide o primeiro, como geralmente ocorre quando se trata de conhecimento.







 Fotos: Carina Rodrigues, professora de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental II.

segunda-feira, 20 de março de 2017

89ª Festa de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira já tem data

Na noite de hoje, 20, a diretoria da Associação Quilombo São Pedro e a Igreja católica convocaram reunião para decidir detalhes sobre a realização da 89ª Festa de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. A Festa de São Pedro, como é conhecida, que é aguardada por todos, neste ano se realizará nos dias 1º e 02 de Julho (Sábado e domingo).
A festividade que tem mais de 90 anos é sempre momento de integração das comunidades quilombolas, tanto do entorno como de bairros e cidades mais distantes. A cada edição o evento atrai mais de 2 mil pessoas de diversos quilombos como Galvão, Ivaporunduva, André Lopes, Sapatú, Nhunguara, Pilões, Maria Rosa, Pedro Cubas, Poça, Abobral... e também de outros bairros vizinhos e até de cidades como Eldorado, Iporanga, Cajati, Jacupiranga, Barra do Turvo, Registro, São Paulo, Santos, Campinas, Praia Grande e São Vicente.
Este ano, os trabalhos serão coordenados por Heloisa, Elvira, Juciara, Daniela, Orides e por mim. A comunidade a cada ano se prepara para receber os visitantes da melhor maneira possível. E este ano não será diferente! Junte a sua galera, divulgue nos seus grupos e redes de amigos que no dia 1º DE JULHO tod@s tem compromisso:

89ª Festa do Quilombo São Pedro!


 
fotos: Juciara de França

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Estudantes quilombolas são aprovados em vestibular e conseguem bolsa de estudos

O último mês de janeiro foi diferente para as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. Cinco estudantes conseguiram ingressar com bolsa de estudos de 100% na Universidade São Francisco.

As universitárias Mariana Ribeiro da Silva, do Quilombo Ivaporunduva e Carolyne Stephany da Silva, do Quilombo André Lopes, ingressaram no curso de Biomedicina; Camila Fernanda Pereira de França, do Quilombo Sapatú em Administração e Jaine Pupo Meira, também do Quilombo Ivaporunduva, está cursando Farmácia; já o universitário Elder Rodrigues dos Santos, do Quilombo Galvão, preferiu Ciências Contábeis. Eles foram contemplados pela parceria que a Universidade tem com a Educafro (Educação e Cidadania para afrodescendentes e carentes). A Ong, coordenada pelo Frei David Santos e com sede em São Paulo, tem tido papel importantíssimo na formação de jovens em cidadania e inclusão desses em instituições de ensino superior.
A partir dos anos 2000 muitos quilombolas já tiveram oportunidade de acessar a academia para graduação; alguns concluíram o Mestrado e outros prosseguem os estudos no Doutorado. É um dos objetivos da Escola Estadual Maria Antonia Chules Princesa, localizada no Quilombo André Lopes, onde os novos universitários estudaram toda a educação básica e que atende alunos de quilombos da região do município de Eldorado-SP. Recentemente, no ano de 2015 alguns quilombolas das comunidades de São Pedro e Ivaporunduva ingressaram nos cursos de Direito, Fisioterapia, Ciências Contábeis e Engenharia Civil. Hoje são referência e tem o papel importante no incentivo de mais jovens para acessarem a graduação.  “Nos Quilombolas com certeza fomos e somos os que mais sofremos as consequências da escravização. Hoje o opressor não se utiliza mais da chibata e das armas de fogo, eles usufruem da inteligência para conseguir tirar o que é nosso por Direito, portanto é aí que entra a importância de termos pessoas capacitadas dentro do Quilombo”, afirma o quilombola Matheus Ribeiro da Silva, atualmente cursando o 3º semestre de Direito.
Em um momento pós-golpe, com inúmeros direitos ameaçados e outros tantos já ceifados é de extrema importância o ingresso à universidade, pois “estudar é a melhor forma de quebrar o sistema”, diz Camila França, caloura do curso de Administração. Sabemos que as ações de hoje terão muitos reflexos “...em todos os campos e estamos mostrando que podemos quebrar esse sistema excludente e a educação é a principal arma pra isso.”, cometa o universitário quilombola Wesley Silva Almeida, matriculado no 4º semestre de Direito.
A tarefa não é simples, assim como o histórico de resistência de nosso povo negro quilombola neste país, mas faz-se necessária, pois “...é imprescindível que tenhamos Quilombolas presentes no mundo acadêmico, só assim conseguiremos fazer frente a situação e estaremos preparados para um futuro próximo com pessoas no mesmo patamar de desenvolvimento para debaterem de igual para igual com aqueles que nos oprimem.”, finaliza Matheus.
Em alguns dias está prevista a chegada de mais 9 calouros bolsistas do quilombo Cavalcante, estado de Goiás; que se juntarão aos universitários do Vale do Ribeira na cidade de Bragança Paulista, onde se localiza o campus da Universidade São Francisco em que eles estudarão.
Zumbi vive!
          Dandara vive!
                     Luiza Mahin vive!
                                    Luiz Gama vive! 
                                               Salve povo negro, povo quilombola!
                                                                    Resistência Sempre!



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Escola Quilombola do Vale do Ribeira celebra o Dia da Consciência Negra

   Antes de escrever este texto acabei pensando em como o faria utilizando o impessoal; no entanto, concluí que não há como fazê-lo. O último dia 18, sexta-feira, foi histórico para a Escola Estadual Maria Antonia Chules Princesa. A unidade escolar conseguiu reunir alunos de diversas escolas do município para uma manhã repleta de atividades educativas de diversos gêneros como Sarau, lançamento de livro, teatro, declamações, danças, músicas entre outras.
A Chules, como carinhosamente é chamada a escola, atende estudantes de 7 comunidades quilombolas: André Lopes, onde está  localizada, Sapatú, Nhunguara, Ostra, Galvão, Ivaporunduva e São Pedro.Quando se está envolvido na realização das atividades não há como relatá-las em terceira pessoa. Pois bem, o evento iniciou-se com a palavra da Diretora Josemira Gouvea que deu as boas vindas e disse sobre a importância de sua realização e da data não só para o nosso povo negro, mas a tod@s. Em seguida li o texto "Consciência negra ou consciência humana?” buscando fazer reflexão sobre a importância de falarmos em Consciência negra e não em Consciência humana, pois ao usarmos o segundo termo estamos indiretamente negando toda a luta e reflexão proposta para esta data.

Alunxs do primeiro e terceiro anos do Ensino Médio (EM) arrasaram declamando poemas e cantando Rap de autoria delxs realizados nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura, História, sociologia e com apoio da Sala de Leitura. A maior parte dos poemas encontra-se no Livreto Poemas, primeiro da coletânea Negro tem história, que foi lançado no ano passado. Neste evento foi lançado o segundo volume, intitulado Nossos contos quilombolas, produção que traz histórias que foram contadas por diversos membros das comunidades e reescritos pelos alunos.  Vozes DÁfrica, de Castro Alves, foi declamado pelas alunas da segunda série do EM e o Rap “Ainda há desigualdade ”, escrito e cantado pelos alunos do 8º Ano do Ensino Fundamental também foram bem aplaudidos pelos presentes.

E pra completar a sequencia, a aluna Bruna Marinho da Silva, que ficou entre as melhores do município na Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa recitou o poema de autoria dela mesma, intitulado “Trilha do ouro”. A estudante da Rede Municipal de Ensino e recebeu homenagem pelo patamar alcançado.

Uma adaptação de “Navio negreiro”, de Castro Alves foi encenada pela 3ª Série/EM e outra peça foi apresentada por estudantes do 1º ano. Intitulada Bernardo Furquim, a encenação apresentou um pouco da vida desse ícone das comunidades da região. Conhecido por ter várias mulheres em vários lugares, a história de Furquim justifica que tal fato era para que as terras quilombolas fossem povoadas por seus descendentes; já que era negro liberto, então se fortaleceria e fortaleceria a todo o seu povo com o povoamento.
O evento teve duas presenças especiais: Gabriela Romeu, jornalista, documentarista e roteirista do documentário “Disque Quilombola” e Penélope Martins escritora e narradora de histórias, que encantou a todos contando “Panela do Rei Xangô”. Crianças e jovens ficaram com olhos fixados nela durante toda a apresentação para não perder um só detalhe da narrativa realizada pela escritora que veio exclusivamente para o evento.
Teve também Hip-Hop, apresentado por alunxs da EE Boa esperança; Maculelê, demonstrado pelas escolas municipais quilombolas; Danças Pérola Negra, Raça negra e outras danças afro realizadas por alunxs da própria Maria Antonia Chules Princesa. E jamais poderia me esquecer da bela apresentação dos usuários da APAE- Eldorado, que mais uma vez demonstraram exemplos de superação.  
Os visitantes puderam ver salas com mostra de maquetes de cada quilombo e com a exposição “O olhar quilombola para si”, projeto de fotojornalismo baseado em imagens capturadas pelos próprios alunos de diversas paisagens, lugares e pessoas das comunidades em que residem. Já o encerramento ficou por conta do Capoeira IBECA Vale do Ribeira; grupo formado por crianças e jovens que praticam a capoeira. Muitos deles são estudantes das EMEF Quilombo São Pedro, Galvão, Ivaporunduva e André Lopes, e outros pertencentes a unidade escolar que sediou celebração.
Prestigiaram o evento: Noel Castelo, representante da Casa Civil do Governo do Estado de São Paulo; Gabriel Spinula, Dirigente de Ensino da Região de Registro; Margareth Porto, Supervisora de Ensino; Durval de Morais- Vadico e Dinoel Rocha, Prefeito e vice, eleitos para os próximos anos; representantes dos Núcleos Pedagógicos da Diretoria de Ensino da Região de Registro; Roseli Silva, representando o Núcleo de Formação Profissional Quilombo André Lopes- ETEC- Centro Paula Souza; Josias Moreira, do Quilombo Sapatú; Adilson oliveira, Quilombo André Lopes; Aurico Dias; Quilombo São Pedro; Antonio Jorge, Quilombo Pedro Cubas; Marina Soares, Quilombo Nhunguara; Setembrino Marinho, Quilombo Ivaporunduva; Valéria Silva, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo; Ademar da Silva Jardim, Diretor do Departamento Municipal de Educação da Educação da Estância Turística de Eldorado; gestores das escolas municipais e estaduais de Eldorado e Gestoras da EMEIF José Maciel da Silva, do Bairro Castelhanos, município de Iporanga-SP. O evento contou ainda com a presença de alunxs das Escolas Odette Pereira Goulart Sales, Jayme Almeida Paiva e Boa Esperança, além das municipais de todas as comunidades 
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Vale lembrar que as atividades relacionadas a temática da Educação Escolar Quilombola ocorrem no ano todo  e se intensificam no mês de novembro. Os alunos tiveram um bate-papo sobre “Cabelo, identidade e autoestima da pessoa negra” com as Professoras Dra. Viviane Marinho Luiz e Pós-doutoranda em Educação Márcia Cristina Américo; em outra ocasião conversaram sobre “Direitos das comunidades quilombolas” com Rodrigo Marinho (EAACONE/MOAB) e Adilson Oliveira, graduando em história, das comunidades de Ivaporunduva e André Lopes, respectivamente. Além disso, estiveram na unidade escolar José Rodrigues da Silva, explanando sobre Construção de Hidrelétricas no Vale do Ribeira e os universitários Wesley Silva, Luiz Eduardo Dias e Dener Silva, do Quilombo São Pedro falando sobre opções de acesso a universidade.
  Vivenciamos sobretudo, uma crescente autoestima das crianças e jovens quilombolas, bem como o sorriso na face dos docentes nos mostra satisfação e sensação de dever cumprido. Porém, espera-se que o Poder Público (todos os setores), ali na mesa representado tenha captado a mensagem de que celebrar o Dia da Consciência Negra não é pra se festejar e sim refletir... Não é esquecer da merenda que as vezes falta, não é esquecer do ônibus que quebra ou que deixou de ir buscar nossos jovens para fazer o ENEM 2016; não é esquecer da falta de Internet (ou acesso precário) desde a fundação da escola há 10 anos, não é esquecer que a escola em questão não tem telefone e está em uma região onde não tem sinal de telefone celular; não é esquecer da Lei de Parques sancionada pelo governo do estado, que dificultará a vida das comunidades cujo parque está ao redor delas; não é esquecer de que os professores e professoras deste município e também os/as do estado tiveram pouquíssimos  momentos de Formação sobre as Leis 10639/03, 11645/08 e Resolução 08/12; não é esquecer que o município é um dos maiores produtores de banana da região, mas a fruta não está presente na alimentação escolar; não é esquecer que uma ETEC foi construída e está praticamente abandonada no quilombo; não é esquecer da lentidão no processo de demarcação de terras quilombolas; não é esquecer que nosso povo negro sofre racismo até hoje em muitos lugares; não é esquecer que Zumbi dos Palmares foi assassinado ao não se render ao sistema imposto... 20 de Novembro é pra reflexão... 













Fotos: Professos César Relva
Mais fotos em: https://www.flickr.com/photos/144800733@N06/sets/72157672868514664/page4/ (Diretoria de Ensino de Registro)